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E agora? O Quadro da Profissionalização do Terceiro Setor
Grande parte das pessoas pensa que trabalhar no terceiro setor é ler histórias e brincar com crianças, porém, nos últimos anos, temos um novo cenário no qual cuidar do social é coisa séria. As organizações não governamentais vêm há décadas cumprindo um papel de melhoria da sociedade que hoje conhecemos e o crescimento que vêm obtendo de 30% ao ano faz esse setor responsável por 1,5 milhões de empregos e US$ 4,7 bilhões do nosso PIB. O crescente apoio das empresas, motivadas pela valorização dos consumidores e colaboradores frente a essas ações, é um dos pilares fundamentais deste movimento.
Dentro de todo este movimento as organizações não governamentais necessitam de aprimoramento contínuo, romper os laços assistencialistas e construir ações sustentáveis de alto impacto e retorno para as comunidades. Com uma legislação e fiscalização muito maior, estas organizações, antes ou depois, encontram duas opções: profissionalizar-se ou esmaecer.
No Brasil, encontramos 24.600.000 pessoas com algum tipo de deficiência, e nesse segmento observamos grandes nomes de instituições que desenvolvem trabalhos na área de educação com crianças e adultos. Um destes exemplos é a APAE, uma instituição iniciada em 1955 por 48 pessoas na antiga capital da República, Rio de Janeiro. No quadro de expansão do terceiro setor, a APAE soube muito bem como se profissionalizar e gerar resultados sociais, estando hoje com 1.700 APAES espalhadas em todo o Brasil.
Infelizmente, as APAES, apesar de toda abrangência, não atendem à demanda de educação de pessoas especiais do nosso país, e diversas outras instituições não conseguem obter o mesmo sucesso da APAE. No caso de Curitiba, temos, além da APAE, outras 43 escolas especiais, sendo somente quatro delas do governo. Neste universo, grande parte destas instituições não consegue expandir suas vagas por falta de recursos. O exemplo nos mostra que as escolas que conseguem crescer e expandir suas vagas, o fizeram através da qualificação da gestão e uma liderança capaz de criar e alcançar objetivos. A inserção de novas práticas, como planejamento estratégico, controles financeiros, projetos motivacionais e manuais para retenção do conhecimento, mostraram-se essenciais para o progresso destas organizações.
O ciclo vicioso destas instituições nos mostra que a falta de profissionalização impede o crescimento e o não crescimento impede a profissionalização. O custo da estagnação destas escolas é, em Curitiba, igual a 1.302 famílias na fila de espera por novas vagas, 1.302 pessoas sem educação, ou seja, 1.302 pessoas especiais sem possibilidade de desenvolvimento. E agora?
Alexandre Schmidt Amorim, Diretor Executivo da ASID, responsável pela gestão interna e marketing. |
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Propaganda para crianças: vilã ou mocinha?
Um dos recentes conselhos de Philip Kotler para se praticar o marketing do futuro é construir no pensamento das empresas a prática da sustentabilidade. Nesse caso, ele falava de um ambiente globalizado e de mutações ambientais, tais como o aquecimento global. Mas, se pensarmos que o mesmo consumidor que aderiu à “onda verde” - e cada vez mais vai julgar companhias por seu desempenho com respeito ao uso sábio e eficiente dos materiais e dos processos de produção - é o mesmo que procria e, portanto, que tem crianças em casa, provavelmente vamos constatar que ele vai exigir posturas responsáveis das marcas que se dirigem aos seus filhos.
O senso crítico faz parte das tendências de comportamento em 9 entre 10 estudos sobre o novo consumidor, atingindo até mesmo as classes sociais menos abastadas. O mesmo ser que começa a reciclar o lixo da sua casa e a usar a sacola de pano para fazer compras no mercado, também deixa de se posicionar como um alvo submisso diante da propaganda. E, como sujeito ativo de escolhas, vai cobrar mais consciência das empresas quando elas se dirigirem aos seus herdeiros. Aí, faltará espaço para as marcas que não respeitem a condição frágil da criança, tanto quanto faltou para produtos com CFC – o gás que acabava com a camada de ozônio.
A questão é: o quanto uma lei para regulamentar o que é bom ou ruim em propaganda cerceia o direito de livre expressão? E se existirem órgãos que ajudem a classe publicitária a conter seu ímpeto maligno de incentivar criancinhas a se jogarem no chão por necessitarem ardentemente de biscoitos que vêm com bonequinhos? E se a propaganda for só no horário em que os pais estiverem presentes para poderem opinar, conversar e conduzir seus filhos a exercitarem o poder de pensar?
Não sei se estamos subestimando a capacidade de defesa emocional do consumidor ou nos omitindo diante de um fato mais cruel: existem crianças que não estão com seus pais por perto o dia todo para lhes ajudar a exercer seu senso crítico e aguçar sua curiosidade para as coisas do mundo. E aí entram dois sub-grupos bem distintos: o das crianças com opção de lazer, cujos pais podem vencer o cansaço de um fim de dia de trabalho e usar seu tempo livre para conversar, brincar ou passear com seus filhos; e o das crianças que não têm outra opção senão uma TV. São as milhares de crianças que moram em condições precárias e a quem falta tudo, menos uma telinha que as leva direto para um mundo de sonhos onde tudo é possível. Tentando sair da crise
Todos sabem que, na infância, somos suscetíveis à fantasia e não conseguimos diferenciar de forma efetiva o que é real da imaginação. O artigo 36 do Código de Defesa do Consumidor diz que a publicidade deve ser facilmente percebida como tal. Porém, com quantos anos passamos a fazer essa distinção? De acordo com um projeto chamado Criança e Consumo, do Instituto Alana,“crianças de até 6 anos não possuem a representação simbólica necessária para o entendimento do valor do dinheiro, isto é, não conseguem ainda saber se algo é caro ou barato, pois a sua capacidade de entender os símbolos está em formação”. Logo, imagino que, sem fazer essa lógica, não há entendimento concreto sobre necessidades de “ter” algo, muito menos se o “ser” está associado ao “ter”, que é o princípio básico da sedução da propaganda.
Logo, se a publicidade provoca o nexo causal de que para “ser alguém” é preciso “ter algo” – e se a criança não tem o poder de neutralizar esse pensamento como um adulto faz quando não quer fazer parte do truque – podemos considerar que é errado submeter crianças à propaganda.
E se formos relevantes na formação desses seres? Se fizermos propostas publicitárias justas, que incentivem as crianças a discutir temas importantes para seu futuro e da humanidade? Se os produtos que vendermos os fizerem brincar de forma que desenvolvam valores como a tolerância, a solidariedade e a paz? Se a composição do salgadinho tiver menos gordura trans e pudermos dormir tranqüilos porque nossas crianças não foram incentivadas a comer algo que mata do coração?
Resta-nos a escolha: querer fazer, ou não, parte de uma classe “satanizada”. Há quem prefira fazer parte da indústria que usa como combustível a informação – uma máquina que movimenta mais de 57 bilhões de reais por ano no Brasil e que pode ser próspera sem deixar de ser ética. Assim, passamos a integrar um grupo capaz de fazer comunicação que não precisa ser censurada porque entende sozinha o limite do bom senso.
Afinal, podemos assumir compromissos simples com aqueles que vamos deixar para o mundo: que a propaganda vai existir como complemento de atividades lúdicas, vai ajudar a desenvolver nas crianças a capacidade de negociação e ser uma opção saudável de mostrar que a vida é cheia de escolhas. Mais do que assumir um lado nessa história, faz bem participar da discussão. Se fizermos isso com leis, auto-regulamentação ou debates, já avançamos, porque colocamos um assunto importante em pauta. Quando o assunto é a garotada, estamos falando sobre o nosso futuro. Se não tivermos um presente que respeite a condição da criança de fazer descobertas no seu próprio tempo, então não temos um futuro digno.
Erika Herkenhoff, Gestora de Marketing do Grupo Bom Jesus, e formada em Publicidade e Propaganda pela UFPR e em MBA em Marketing pela FGV. |
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